Essa conferência surrealista para a reconstrução de Gaza

Daniel Pipes

Será que eu fui o único a esfregar meus olhos em descrença enquanto o governo egípcio hospedava uma “Conferência Internacional para a Reconstrução de Gaza”?

Foto da “Conferência Internacional para a Reconstrução de Gaza”.


Ela ocorreu em Sharm El-Sheikh, com o comparecimento de delegações de 71 Estados e mais 16 organizações regionais, internacionais e financeiras. Sua meta proclamada era de levantar 2,8 bilhões de dólares, dos quais 1,3 bilhão de dólares para reconstruir o que tinha sido destruído durante a recente guerra de Israel contra o Hamas (o restante seria enviado à Autoridade Palestina para ajudar a melhorar sua situação). A quantia real levantada na conferência foi de 4,5 bilhões de dólares que, acrescentada a fundos previamente prometidos, eleva a doação total para Gaza e a Autoridade Palestina (AP) a 5,2 bilhões de dólares, a serem desembolsados em um período de dois anos. O ministro do Exterior egípcio, encantado, afirmou que a quantia estava “além das nossas expectativas”. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, classificou o encontro de “uma conferência muito produtiva”.

Entre as maiores doações estão incluídas as contribuições do Conselho de Cooperação do Golfo, de 1,65 bilhão de dólares no prazo de cinco anos, e um comprometimento do governo dos EUA de 900 milhões de dólares do contribuinte americano (dos quais, 300 milhões de dólares irão para a reconstrução de Gaza).

Hosni Mubarak do Egito, Nicholas Sarkozy da França, Silvio Berlusconi da Itália, Ban Ki-moon das Nações Unidas, Amr Moussa da Liga Árabe e Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina discursaram.

Por que a minha descrença neste espetáculo? Eu desejo saber se essas eminências e personalidades realmente acreditam que a guerra em Gaza é coisa do passado e que chegou a hora da reconstrução.

Eles não devem ler os despachos do Sul de Israel, que relatam a guerra diária que continua lá. Veja uma notícia representativa do [jornal israelense] Yedi’ot Aharonot, datado de 28 de fevereiro: “Peritos afirmam: mísseis Grad lançados sobre Ashkelon eram avançados”:

“Os dois foguetes Grad que caíram em Ashkelon no sábado de manhã [28 de fevereiro], eram novos e de modelos aprimorados, capazes de causar maior destruição do que aqueles que normalmente são lançados de Gaza. Um dos foguetes caiu em uma escola na região Sul da cidade e conseguiu penetrar na fortificação que a protegia de projéteis... Os foguetes Grad que caíram em Ashkelon foram dois dos únicos cinco ou seis de 170mm fabricados localmente [em Gaza] já lançados sobre Israel, dizem os peritos. Esses foguetes raramente usados têm um alcance de 14 km (8,6 milhas) e são capazes de causar enormes danos, evidenciados pela destruição descrita pelas testemunhas no local do ataque de sábado”.

Em um protesto oficial às Nações Unidas, a embaixadora de Israel, Gabriela Shalev, observou: “houve quase 100 ataques com foguetes e morteiros da Faixa de Gaza” desde o cessar-fogo do dia 18 de janeiro, ou seja, mais de dois por dia. E eles têm aumentado em número, com 12 foguetes lançados somente sobre Sderot no dia 1º de março.

Respondendo a esses ataques, o gabinete israelense resolveu no dia 1º de março: “caso os lançamentos da Faixa de Gaza continuem, eles serão confrontados com uma resposta dolorosa, dura, forte e inflexível pelas forças de segurança”. O primeiro-ministro designado Benjamin Netanyahu ecoou essa belicosidade, dizendo a um líder europeu, ao que consta, que não sacrificaria a segurança de Israel “por um sorriso”.



Dois foguetes Grad caíram em Ashkelon no dia 28 de fevereiro, um deles atingindo uma escola no sul da cidade (foto de baixo).


(O ministro do Exterior saudita, Saud Al-Faisal, concordando de forma inesperada, observou que a reconstrução de Gaza seria “difícil e imprudente, enquanto a paz e a segurança não prevalecerem lá”.)

O que, afinal, os países doadores estão fazendo, entrando no meio de uma guerra em andamento, com o seu suposto esforço de reconstrução de alto gabarito? Meu melhor palpite: isso lhes permite sinalizar sutilmente a Jerusalém que é melhor não atacar Gaza novamente, porque fazendo-o os israelenses se verão confrontados com muitos governos doadores profundamente irados – incluindo, claro, a administração Obama.

Além do surrealismo, há uma negligente desconsideração pelas necessidades de segurança de Israel. Considere a atitude de Douglas Alexander, o secretário de Desenvolvimento Internacional do governo trabalhista da Inglaterra, que prometeu doar 30 milhões de libras esterlinas de fundos dos seus contribuintes para reconstruir casas, escolas e hospitais em Gaza. “Há uma necessidade desesperada para que as duras restrições ao suprimento de bens seja afrouxado”, disse ele, exigindo em seguida que “Israel tem de fazer a coisa certa depressa e deve permitir que bens muito necessários cheguem a esses homens, mulheres e crianças que continuam sofrendo”.

Isso é muito humanitário da parte do Sr. Alexander, mas ele intencionalmente ignorou as considerações israelenses de que o Hamas confiscará o aço, o concreto e outros materiais de construção importados, para construir mais túneis, bunkers e foguetes. Afinal de contas, anteriormente o Hamas desviou entregas destinadas aos civis de maneira tão flagrante que até mesmo a normalmente dócil UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos) protestou.

Hosni Mubarak (o presidente egípcio) poderia advertir o Hamas para não tratar as promessas dos doadores como uma “conquista de guerra”, pois, sem dúvida, o grupo terrorista fará precisamente isso. O deputado americano Mark Kirk (Republicano de Illinois) entendeu bem: “Se encaminharmos 900 milhões de dólares a essa área, e supondo que o Hamas consiga roubar apenas 10% disso, ainda assim nos tornaríamos o segundo maior financiador do Hamas, depois do Irã”.

Assim, sob a alegre bandeira de construir, nas palavras de Hillary Clinton, “uma paz abrangente entre Israel e seus vizinhos árabes”, os Estados doadores não só estão desafiando Israel a se proteger do lançamento de foguetes mas estão canalizando recursos para o Hamas.

Trata-se de ignorância ou hipocrisia? Eu suspeito que seja a segunda; ninguém é tão tolo assim. (Daniel Pipes, extraído de www.danielpipes.org, http://www.beth-shalom.com.br)

Brasil doará US$ 10 milhões para reconstrução da Faixa de Gaza

Brasília – O Brasil destinará US$ 10 milhões à reconstrução da Faixa de Gaza. O anúncio foi feito hoje (2/3/2009) pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, durante a Conferência dos Doadores em Apoio à Economia Palestina para a Reconstrução de Gaza, que se realiza em Sharm El-Sheik, no Egito. As informações são da assessoria de imprensa do Itamaraty.

A contribuição ainda depende de aprovação do Congresso Nacional, como exige a legislação brasileira. Ao todo, 75 países participam da conferência, o primeiro grande esforço da comunidade internacional para normalizar a situação humanitária em Gaza depois do conflito de janeiro. [...] (Agência Brasil)

Publicado anteriormente na revista Notícias de Israel, abril de 2009.

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