O mito de al-Aqsa

Mordechai Kedar

Para o islã, a santidade de Jerusalém sempre foi politicamente motivada

Quando o profeta Maomé estabeleceu o islamismo, introduziu um mínimo de inovações. Ele utilizou os personagens sagrados, lendas históricas e locais sagrados do judaísmo e do cristianismo, e até mesmo do paganismo, e os islamizou. Assim, de acordo com o islã, Abraão foi o primeiro muçulmano. Jesus e [o apóstolo] João são filhos de Miriã* e foram profetas e guardiões do segundo céu. Muitas histórias bíblicas (“asatir al-awwalin”), com as quais os árabes pagãos estavam familiarizados antes do alvorecer do islã, foram submetidas à conversão islâmica, e o Corão e o Hadith (tradição oral islâmica), estão repletos delas.

A islamização foi praticada tanto para lugares como para pessoas: Meca e a pedra sagrada – a Caaba – eram lugares sagrados dos árabes pagãos pré-islâmicos. A mesquita Omíada de Damasco e a Grande Mesquita de Istambul foram erguidas em lugares onde antes havia igrejas cristãs bizantinas (dois dos mais conhecidos exemplos de como o islã trata santuários de outras religiões).

Jerusalém também sofreu o processo de islamização: no início, Maomé tentou convencer os judeus da região de Medina a participarem de sua jovem comunidade. Para persuadi-los, estabeleceu que a direção da oração (kibla), seria para o norte, na direção de Jerusalém, em consonância com a prática judaica. Tendo falhado em suas tentativas de persuasão, voltou-se contra os judeus, matou muitos deles, e dirigiu a kibla para o sul, em direção a Meca.

O abandono de Jerusalém por Maomé explica o fato de que a cidade não é mencionada sequer uma vez no Corão.

O abandono de Jerusalém por Maomé explica o fato de que a cidade não é mencionada sequer uma vez no Corão. Depois que a Palestina foi ocupada pelos muçulmanos, a sua capital era Ramlah, 50 quilômetros a oeste de Jerusalém, o que significa que Jerusalém não representava grande coisa para eles.

Redescobrindo Jerusalém

O islã redescobriu Jerusalém 50 anos após a morte de Maomé. Em 682 d.C., Abd Allah ibn al-Zubayr rebelou-se contra os governantes islâmicos em Damasco, conquistou Meca e impediu que os peregrinos chegassem a Meca para o Hajj. Abd al-Malik, o califa omíada, precisava de um local alternativo para a peregrinação e escolheu Jerusalém, que estava sob seu controle. Para justificar essa decisão, ele usou um verso do Corão (Sura 17:1) que diz (como traduzido por Majid Fakhri):

Glória a Ele que levou seu servo a viajar à noite da Mesquita Sagrada à Mesquita Mais Distante, cujos arredores abençoamos, a fim de lhe mostrar alguns de nossos sinais. Ele é, na verdade, o que ouve tudo e vê tudo.

O significado atribuído a este verso é que “a Mesquita Mais Distante” (al-masgid al-aqsa) está em Jerusalém. Maomé teria sido conduzido para lá em uma noite (embora, na época a viagem demoraria cerca de três dias de camelo), montado em al-Buraq, um cavalo mágico com cabeça de mulher, asas de águia, cauda de pavão e cascos que alcançavam o horizonte. Ele amarrou o cavalo ao Muro Ocidental (Muro das Lamentações) do monte do Templo e de lá ascendeu ao sétimo céu com o anjo Gabriel. No caminho, ele encontrou os profetas de outras religiões que são os guardiões do céu.

Relato miraculoso

Assim, o islã tenta ganhar legitimidade em relação às religiões mais antigas, criando uma encenação em que os profetas anteriores concordam com a primazia de Maomé, fazendo dele o Khatam al-Anbiya (“Selo dos Profetas”).

Não admira que esta história milagrosa contradiz alguns dos princípios do islã: como pode um homem de carne e sangue subir para o céu? Como pode uma criatura mítica levar um mortal para um destino real? Perguntas como estas levaram pensadores muçulmanos ortodoxos a concluir que a jornada noturna foi um sonho de Maomé. A viagem e a ascensão servem ao islã para ser “melhor ou superior” à Bíblia: Moisés “apenas” subiu ao monte Sinai, no meio do nada, e só ficou perto do céu, enquanto Maomé ascendeu por todo o caminho até Alá, e a partir da própria Jerusalém.

Quais são as dificuldades com a crença de que a mesquita al-Aqsa, descrita na tradição islâmica, está localizada em Jerusalém? Primeiro, a população de Meca, que conhecia bem Maomé, não acreditou nessa história. Apenas Abu Bakr (mais tarde o primeiro califa), acreditou nele e, por isso, foi chamado de al-Siddiq (“o crente”).

A tradição islâmica nos diz que a mesquita al-Aqsa é, na verdade, perto de Meca, na Península Arábica.

A segunda dificuldade é que a tradição islâmica nos diz que a mesquita al-Aqsa é perto de Meca, na Península Arábica. Isso foi afirmado inequivocamente no Kitab al-Maghazi, um dos livros do historiador e geógrafo muçulmano al-Waqidi. De acordo com ele, havia dois “masjeds” (locais de oração), em al-Gi’irranah, uma aldeia entre Meca e Taif – um era “a mesquita próxima” (al-masjid al-adna) e o outro era “a mesquita distante” (al-masjid al-aqsa), onde Maomé rezava quando saía da cidade.

Essa descrição de al-Waqidi, com o apoio de uma série de autoridades (isnad), não era “apropriada” para a propaganda islâmica do século VII. A fim de estabelecer uma base para a consciência da “santidade” de Jerusalém no islamismo, os califas da dinastia omíada inventaram muitas “tradições” confirmando o valor de Jerusalém, o que justificaria a peregrinação a Jerusalém para os fiéis muçulmanos. Assim, a al-Masjid al-Aqsa foi “transportada” para Jerusalém. Note-se que Saladino também adotou o mito de al-Aqsa e essas “tradições”, a fim de recrutar e inflamar os guerreiros muçulmanos contra os cruzados no século XII.

O judaísmo deve submeter-se aos mitos islâmicos?

Outro objetivo da islamização de Jerusalém era minar a legitimidade das religiões predecessoras, o judaísmo e o cristianismo, que consideram Jerusalém uma cidade santa. O islã é apresentado como a única religião legítima, destinada a substituir as outras duas, já que tinham mudado e distorcido a Palavra de Deus, cada uma em seu tempo.

Embora o judaísmo e o cristianismo possam existir lado a lado em Jerusalém, o islã os considera como traidores de Alá e seus ensinamentos. Por isso, ele sempre fez, e continuará a fazer, tudo que está em seu poder para expulsar a ambos da cidade. É interessante notar que essa expulsão é retroativa: os locutores islâmicos das emissoras de rádio palestinas insistem constantemente que os judeus nunca tiveram um templo no monte do Templo e, naturalmente, que não existiram dois templos (onde, então, de acordo com eles, Jesus pregou?).

Yasser Arafat, mesmo sendo uma pessoa secular (pergunte ao Hamas!), fez exatamente o que os califas da dinastia Omíada fizeram há 1300 anos: defendeu a santidade de Jerusalém para servir aos seus fins políticos. Não se pode admitir o controle de Jerusalém pelos judeus, pois, de acordo com o islã, eles são impuros e a ira de Alá repousa sobre eles. Além disso, os judeus são os filhos de macacos e porcos. Eles desvirtuaram os escritos sagrados que lhes foram revelados e negaram os sinais de Deus. Uma vez que eles violaram a aliança com seu Deus, foram amaldiçoados por Ele e serão para sempre herdeiros do inferno. Então, como Arafat poderia ceder Jerusalém para os judeus?

A mídia palestina está cheia de mensagens de jihad, conclamando à ampliação da guerra nacional-política entre Israel e os palestinos, transformando-a numa guerra religiosa-islâmica entre judeus e muçulmanos. Para eles, o cristianismo não é melhor do que o judaísmo, uma vez que ambos “desperdiçaram” seu direito de governar Jerusalém. Somente o islã – Din al-Haqq (“a Religião da Verdade”) – tem esse direito, e para sempre.

Como a santidade de Jerusalém para o islã sempre foi, e continua sendo, nada mais que politicamente motivada, qualquer líder ou governante muçulmano que renunciar a ela arrisca sua posição política. O judaísmo e o cristianismo devem submeter-se a esses mitos inseridos nos textos islâmicos, ou revelados nos sonhos de Maomé, muito tempo depois de Jerusalém ter sido estabelecida como o centro antigo e verdadeiro dessas duas religiões, antecessoras do islã? Israel deve desistir de sua capital apenas porque alguns muçulmanos decidiram reciclar os problemas políticos dos Omíadas 1250 anos depois que a cortina caiu sobre o seu papel na história? (Mordechai Kedar — www.ynetnews.com — Beth-Shalom.com.br)

* Maomé confundiu Miriã, irmã de Moisés e Arão, com Maria (Miriã, em hebraico).

Mordechai Kedar é professor do Departamento de Árabe na Universidade Bar-Ilan (Ramat Gan, Israel).

As opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores.

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